Um tio mesmo está ficando doido. Não digo no sentido figurado, começou a bater a loucura mesmo, no sentido literal da coisa, não dormia, ficava perambulando por aí, cantando, falando sozinho, essas coisas todas. E a loucura é uma coisa recorrente na minha família. Primos de avô loucos, primos de mamãe perdidos no mundo pois estavam variando, aí saíram andando sem rumo e se perderam no mundo. Sem exagero, sem dramas. O câncer também é um recorrente na família, matou uma tia minha antes dos trinta e pegou minha mãe, que está em remissão agora, depois de várias quimios, duas cirurgias complexas, etc.
Mas aí fui julgada por dizer que eu não ligo para a loucura do meu tio (que é irmão da minha mãe). E não sinto mesmo, mas tive que sair explicando que não é que eu torça pela piora, que ache bem feito e coisa e tal, ou que não tenha coração (mas nessa parte até concordo. Se minha mãe diz isso, ela deve ter razão e não discuto com mãe). Não é isso. Não queria que acontecesse, mas não dou a mínima. Pode enlouquecer de vez que EU não ligo. Sei que tem gente querida que ligará, mas não eu, entende?
Ocorre só uma coisa: alguém me explica racionalmente o motivo de eu TER A OBRIGAÇÃO de sentir dó dele?? Compaixão, ao meu ver, é algo que também deve ser merecido, posso estar errada, redondamente enganada, mas é assim que raciocino. E aí tenho que lembrar para as pessoas que acham que eu sou um monstro algumas coisinhas básicas:
Primeiro: se for para adjetivar esse tio, o melhor que poderia dizer é que ele foi ausente. Não tenho nenhuma lembrança de uma pessoa que estava ali, que participava, se envolvia. Até defendo a não necessidade de ser assim. Ele é meio ermitão, sempre foi e esse é o jeito dele mesmo. Não cobro nada nesse sentido. Mas também não me obrigue a achar que por essa característica pessoal dele, devo relevar e criar uma categoria especial de pessoas que, por mil motivos, mesmo justificáveis, não fizeram parte da minha vida, mas que eu tenha que gostar. Não rola. Respeito o jeitão quieto (até sou meio assim também), mas aceite as consequencias e não queira indulgências.
Segundo, porque na verdade, não há uma falta de lembranças. Como disse, ausente seria minha melhor classificação, mas não é a real. Eu tenho lembranças dele. Dizendo que a sorte, o capeta, ou sei lá mais o que beneficia quem não precisa. Quando meu avô morreu optaram por um sorteio das terras dele para os herdeiros. Na concepção dele e de outro tio tosco, minhã mãe e minha tia, que teriam melhores condições de vida, acabaram com as melhores partes.
Detalhe: minha mãe e tia estavam ausentes no dia do "sorteio", afinal, tinham mais o que fazer da vida, filhos pra cuidar, entre outras coisas, moravam longe, etc. Não estavam disponíveis para ficar cercando a herança ainda quente. Então, como "nem estavam ali", os presentes fizeram o que estava possível no momento e foram os primeiros a enfiar a mão na cumbuca e sortear o papelzinho indicando que parte lhes cabiam no latifundio. Minha mãe e tia pegaram o que sobrou. Mas na lógica deles, foram beneficiadas pela sorte. Eu estava lá. Eu ouvi. E eu não vou esquecer.
Terceiro: A fazendinha do meu avô, agora dividida em 5 lotes, nunca foi fazenda de verdade. Complexo de superioridade querer dizer que aquilo era fazenda. Era um mero pedaço de terra. Grande, mas não uma fazenda, que fique claro. E sequer tinha luz elétrica. Aqueles tios quiseram 'se tornar' fazendeiros, sem estudo, sem experiência, só com a terra herdada. E fizeram o escarcéu querendo juntar dinheiro entre os irmãos para que a energia fosse implantada na fazenda. Minha mãe, minha tia, fizeram o que deu pra fazer, arranjaram a (não pouca) grana e deram para os que estavam lá, para que cuidassem de tudo, já que queriam demais e precisavam (vocês estão na cidade grande, bem de vida, nós aqui batalhando na terra e no escuro).
A luz nunca veio. O dinheiro nunca voltou.
Sem falar que, meu avô, quando os netos nasciam, dava um boi/vaca para cada. Sou a segunda mais velha (na verdade terceira, mas o tio em questão tem um filho que não entra nas contas oficiais familiares). Minha tia tem também 2 das netas entre as mais velhas. Era para ter rendido alguma coisinha pouca (novamente, nada de gado de raça, que custa caro - não tá?). Mas, misteriosamente, nossas vaquinhas, deixadas sob os cuidados dos tios que moravam na fazenda, morreram, sumiram, atolaram. Não sobrou uma. Maaaassss, as dos filhos dele misteriosamente rendiam demais.
Puta falta de sorte.
E terceiro, finalmente, mas não menos importante: Minha mãe teve câncer. Como disse, foram quimios, operações (sim, tudo no plural). Esse tio não tentou sequer comprar um cartão de orelhão e ligar para ver se estava tudo bem. Não falou com minha mãe no processo. Claro, deve ter perguntado pra minha avó, ouviu as notícias, etc. Mas pessoalmente, não houve esforço, entende? A mulher dele, minha tia (não de sangue) arranjou o telefone do hospital, ligou, pegou ervas na fazenda e fez minha vó entregar pra mamãe. Ou seja, quem nem é da família, falando de laços de sangue (mas não que seja importante), fez o que deu, mostrou que se preocupava. Ele, ainda são (deixando claro), nada fez.
Agora, dizem, está tomando remédio, acho que está sendo acompanhado por médicos, e está ok. Voltou à normalidade.
Fico puta, porque sei que minha avó, minha tia, minhã mãe estão preocupadas. Vi na minha mãe uma preocupação grande, e sei que não houve reciprocidade da parte dele. Acho que quem vai acabar bancando algum remédio, tratamento, caso precise, será minha avó.
Mas não, não acho que tenha que passar por cima de tudo isso e ter dó. Não tenho. Não consigo.
Na família, até os mais próximos condenaram minha reação. Isso me dói. Acho bacana que você seja superior, saiba dos bailes que ele deu na tia, na mãe, sabe mais em quem, mas ainda sinta pena. Mas tente compreender que eu não consigo. Isso não significa que ache tudo bem feito ( até acho um pouco, sendo sincera aqui). Mas, simplesmente, estou devolvendo a ele o mínimo. Indiferença.
Nenhum comentário:
Postar um comentário