sexta-feira, 24 de maio de 2013

Dois pesos, duas medidas. Odeio...

... quando alguém está mal e para baixo, a gente escuta: releva, entende. Você precisa entender que fulano/a está passando por um momento difícil. Dá um tempo pra ele/a.

Quando você está num momento difícil, escuta: para com isso, levanta, sacode essa poeira e segue em frente.

Pra que fazer isso com a gente?

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Roda

Quando você acha que algum assunto acabou, que pode começar a esquecer aquela sombra, achar que ela faz parte definitiva do passado, é nessa hora em que o destino ri de você e te joga na fossa de novo.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Detalhes

Um tio mesmo está ficando doido. Não digo no sentido figurado, começou a bater a loucura mesmo, no sentido literal da coisa, não dormia, ficava perambulando por aí, cantando, falando sozinho, essas coisas todas. E a loucura é uma coisa recorrente na minha família. Primos de avô loucos, primos de mamãe perdidos no mundo pois estavam variando, aí saíram andando sem rumo e se perderam no mundo. Sem exagero, sem dramas. O câncer também é um recorrente na família, matou uma tia minha antes dos trinta e pegou minha mãe, que está em remissão agora, depois de várias quimios, duas cirurgias complexas, etc.

Mas aí fui julgada por dizer que eu não ligo para a loucura do meu tio (que é irmão da minha mãe). E não sinto mesmo, mas tive que sair explicando que não é que eu torça pela piora, que ache bem feito e coisa e tal, ou que não tenha coração (mas nessa parte até concordo. Se minha mãe diz isso, ela deve ter razão e não discuto com mãe). Não é isso. Não queria que acontecesse, mas não dou a mínima. Pode enlouquecer de vez que EU não ligo. Sei que tem gente querida que ligará, mas não eu, entende?

Ocorre só uma coisa: alguém me explica racionalmente o motivo de eu TER A OBRIGAÇÃO de sentir dó dele?? Compaixão, ao meu ver, é algo que também deve ser merecido, posso estar errada, redondamente enganada, mas é assim que raciocino. E aí tenho que lembrar para as pessoas que acham que eu sou um monstro algumas coisinhas básicas:

Primeiro: se for para adjetivar esse tio, o melhor que poderia dizer é que ele foi ausente. Não tenho nenhuma lembrança de uma pessoa que estava ali, que participava, se envolvia. Até defendo a não necessidade de ser assim. Ele é meio ermitão, sempre foi e esse é o jeito dele mesmo. Não cobro nada nesse sentido. Mas também não me obrigue a achar que por essa característica pessoal dele, devo relevar e criar uma categoria especial de pessoas que, por mil motivos, mesmo justificáveis, não fizeram parte da minha vida, mas que eu tenha que gostar. Não rola. Respeito o jeitão quieto (até sou meio assim também), mas aceite as consequencias e não queira indulgências.

Segundo, porque na verdade, não há uma falta de lembranças. Como disse, ausente seria minha melhor classificação, mas não é a real. Eu tenho lembranças dele. Dizendo que a sorte, o capeta, ou sei lá mais o que beneficia quem não precisa. Quando meu avô morreu optaram por um sorteio das terras dele para os herdeiros. Na concepção dele e de outro tio tosco, minhã mãe e minha tia, que teriam melhores condições de vida, acabaram com as melhores partes.

Detalhe: minha mãe e tia estavam ausentes no dia do "sorteio", afinal, tinham mais o que fazer da vida, filhos pra cuidar, entre outras coisas, moravam longe, etc. Não estavam disponíveis para ficar cercando a herança ainda quente. Então, como "nem estavam ali", os presentes fizeram o que estava possível no momento e foram os primeiros a enfiar a mão na cumbuca e sortear o papelzinho indicando que parte lhes cabiam no latifundio. Minha mãe e tia pegaram o que sobrou. Mas na lógica deles, foram beneficiadas pela sorte. Eu estava lá. Eu ouvi. E eu não vou esquecer.

Terceiro: A fazendinha do meu avô, agora dividida em 5 lotes, nunca foi fazenda de verdade. Complexo de superioridade querer dizer que aquilo era fazenda. Era um mero pedaço de terra. Grande, mas não uma fazenda, que fique claro. E sequer tinha luz elétrica. Aqueles tios quiseram 'se tornar' fazendeiros, sem estudo, sem experiência, só com a terra herdada. E fizeram o escarcéu querendo juntar dinheiro entre os irmãos para que a energia fosse implantada na fazenda. Minha mãe, minha tia, fizeram o que deu pra fazer, arranjaram a (não pouca) grana e deram para os que estavam lá, para que cuidassem de tudo, já que queriam demais e precisavam (vocês estão na cidade grande, bem de vida, nós aqui batalhando na terra e no escuro). 

A luz nunca veio. O dinheiro nunca voltou.

Sem falar que, meu avô, quando os netos nasciam, dava um boi/vaca para cada. Sou a segunda mais velha (na verdade terceira, mas o tio em questão tem um filho que não entra nas contas oficiais familiares). Minha tia tem também 2 das netas entre as mais velhas. Era para ter rendido alguma coisinha pouca (novamente, nada de gado de raça, que custa caro - não tá?). Mas, misteriosamente, nossas vaquinhas, deixadas sob os cuidados dos tios que moravam na fazenda, morreram, sumiram, atolaram. Não sobrou uma. Maaaassss, as dos filhos dele misteriosamente rendiam demais. 

Puta falta de sorte.

E terceiro, finalmente, mas não menos importante: Minha mãe teve câncer. Como disse, foram quimios, operações (sim, tudo no plural). Esse tio não tentou sequer comprar um cartão de orelhão e ligar para ver se estava tudo bem. Não falou com minha mãe no processo. Claro, deve ter perguntado pra minha avó, ouviu as notícias, etc. Mas pessoalmente, não houve esforço, entende? A mulher dele, minha tia (não de sangue) arranjou o telefone do hospital, ligou, pegou ervas na fazenda e fez minha vó entregar pra mamãe. Ou seja, quem nem é da família, falando de laços de sangue (mas não que seja importante), fez o que deu, mostrou que se preocupava. Ele, ainda são (deixando claro), nada fez.

Agora, dizem, está tomando remédio, acho que está sendo acompanhado por médicos, e está ok. Voltou à normalidade. 

Fico puta, porque sei que minha avó, minha tia, minhã mãe estão preocupadas. Vi na minha mãe uma preocupação grande, e sei que não houve reciprocidade da parte dele. Acho que quem vai acabar bancando algum remédio, tratamento, caso precise, será minha avó. 

Mas não, não acho que tenha que passar por cima de tudo isso e ter dó. Não tenho. Não consigo. 

Na família, até os mais próximos condenaram minha reação. Isso me dói. Acho bacana que você seja superior, saiba dos bailes que ele deu na tia, na mãe, sabe mais em quem, mas ainda sinta pena. Mas tente compreender que eu não consigo. Isso não significa que ache tudo bem feito ( até acho um pouco, sendo sincera aqui). Mas, simplesmente, estou devolvendo a ele o mínimo. Indiferença.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Inteligência limitada

Ah, claro, e agora estou brigando para descobrir pq diabos o blogger não me abre os comentários, o que me impossibilita de ler os benditos, quanto mais responder.

Dodói

A pequena criança aqui ficou doente na quinta. Isso, somado ao tédio, acabou por virar uma dor no corpo incrível e uma fraqueza muscular maior ainda. Então, fui parar no hospital, onde acharam que eu estava com dengue.

Não estava. Exame de sangue deu negativo, então me vieram com um diagnóstico de virose que virou atestado e não fui trabalhar/estudar no restante da quinta, nem na sexta, emendando portanto com o fim de semana.

Parece bom, mas lembrem-se de que eu não LEVANTEI da cama durante esses dias. Bem, tecnicamente, levantei, a gente precisa tomar banho, fazer xixi, escovar os dentes, beber água e pegar pizza na porta do apê. E isso só já deixava o corpo doído.

Devo assumir, entretanto que embora tenha ficado pelo menos umas 50 horas na posição horizontal, sozinha, acordando e dormindo contínuamente, foi melhor que ter ido trabalhar. Imagine se eu pudesse ter feito algo além disso, hein?? Hoje o despertador tocou e quis chorar. Ainda não estou 100%, mas mesmo que tivesse, essa folga para hibernar já me deixou mal acostumada.

No sábado a noite fui abrir o bloguinho pra escrever algo e, olha só, tinha esquecido a senha. Nada no mundo foi capaz de me fazer lembrar. Agora, no trabalho, onde guardei um papelzinho escondido num canto também escondido é que "lembrei" (cof-cof).

Agora pensa, se estou assim com futilidades, entendeu meu drama em reter informações 'úteis' tipo matéria de aula?

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Dei TILT

Ontem não dormi com uma ideia (odeio não por acento nessa palavra - maledeta reforma ortográfica) que ficava martelando na minha cabeça.

Perdi um tempão pensando nisso, depois mais um tempão pensando em vir aqui desabafar.

Aí hoje simplesmente me deu uma preguiça INFINITA de escrever sobre o assunto.

Eu esgoto meus temas batendo papo comigo mesma, olha só?

Sério, sou muito equivocada na vida...

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Tirando cartão vermelho do bolso.

Estou sem celular, deixei o danado dar um mergulho na pia cheia d'água, está na assistência por tempo indefinido.

Boy quase namorado sabe disso, óbvio. E sabe que meus meios de comunicação são o laptop em casa (quando está ligado, claro), o telefone fixo (quando estou em casa, claro) e o telefone e computador do trabalho (em dias e horários uteis, claro mais uma vez).

Ontem, feriado, ele me liga as 11, fala que está tudo bem, etc. Respondo o mesmo. Nada de programas, e ele está no trabalho e irá viajar na tarde do feriado, para estar no lugar 'x' todo bonitinho e entregar/pegar documentos. Tudo por causa do trabalho dele.

Cerca de meio dia, uma prima liga e me chama pra sair. Disse que está perto de casa, o programa é família (passear com a filha dela, juntamente com minha tia, ou seja, combo -almoço-cinema-parquinho). Poxa, resolvi ir, e a prima diz que em 10 minutos está em casa, lá embaixo do prédio, no carro, me esperando.
Tiro o pijama, troco de roupa rapidinho e saio.

Chego 7 da noite, cansadaça, criança suga a energia da gente.

Telefone liga e é o boy puto, porque te ligou e não te achou, inconformado pois você deixou ele sem saber onde você estava indo, ele ficou preocupado já que o telefone tocava e ninguém atendia.

Pergunto: Sou muito chata em achar tal coisa absolutamente desnecessária (programa inseperado, pouco tempo, eu -tia-prima-filha da prima sem celular), e umas 7 horas fora de casa. Se tivesse ido viajar, saído a noite e não voltado, ok, entendo. Mas pra ir no parquinho num feriado a tarde, é tão desesperador assim, durante um período à tarde ficar sem notícias de alguém?

Ah, sério, me poupe.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Nome sujo na praça

Eu publico coisas tipo o texto anterior e, de repente, me dá o desespero, gente, se o povo do trabalho liga os pontos lendo isso aqui tô ferrada.

Mas daí lembro que esse não é o blog sério, e o peso do mundo sai das minhas costas. Libertador isso.

Inspira, expira...

Aquele-que-não-é-seu-chefe (um sub-coordenador) tem uma atividade a fazer e não faz. Joga na sua mesa e fala para VOCÊ se virar com aquilo, e colocar seu chefe-de-verdade (o Coordenador-Geral mesmo)para assinar. 

Detalhe, a área que deveria fornecer a informação é a do sub, mas enfim, ele diz que não tem problema nenhum só o geral assinar.

Você fica puta, mas faz a resposta. Manda por email pra todos, para avaliação. Ninguém se manifesta. No outro dia, fala com o chefe-de-verdade, ele concorda com o que você escreveu (pelo visto ele foi o único que leu a minuta). Beleza, tá livre disso.

Maaaaaaas, na hora de entregar o documento, aquele-que-não-é-seu-chefe aparece e fala que acha que tem que mudar a resposta, pega o papel da sua mão e diz que vai conversar com o chefe-de-verdade.

ME DIZ: Se ele acha que sabe fazer (e era da competência dele mesmo, obrigação dele fazer), porque não fez???? Se era para passar para um outro, porque deixou o prazo quase estourar? E se não gostou, porque esperou tanto tempo para se manifestar (cara, mandei a minuta por email, caracoles).

Nem nove da manhã e eu já querendo matar um.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Lições aleatórias do final de semana

Lição nº 1- Se o seu cabelereiro de sempre não deixa você cortar seu cabelo, mesmo você dizendo que quer, não faça como eu, ficando brava e indo em um outro qualquer.

TINHA o cabelo na cintura, pedi para cortar de 4 a 6 dedos(sou generosa, viu), e agora sou feliz proprietária de um cabelinho 2 dedos abaixo do ombro (acho que ela mediu da raiz para baixo, e não o contrário).

Se eu fosse apegada ao cabelo, tinha chorado. Nem é isso o que me deixa puta. O que me faz enlouquecer é ver que tem aqueles cabelinhos maiores, diferentes uns dos outros, sabe? Como pode, meu cabelo é liso, o corte é reto, e a pessoa consegue, além de não ter noção de medidas, não ter noção de corte de cabelo (se dizendo cabelereira).

Enfim, agora deixa dar os 4 meses pra retocar a raiz, volta no cabelereiro de sempre e ainda sabendo que vai escutar O esculacho. Aprenda. E invente que você estava enjoada do cabelão e pediu um corte desconectado.

Lição nº 2 - Não resolva passar um sábado praticamente em jejum sozinha. Domingo chega, você está de saco cheio desssa vida modorrenta (e sozinha, já disse, né?). Faz o que? Comer? Não, esse nem foi o problema (fiz um prato de macarrão, exato, sem faltar nem sobrar). Mas tomei uma garrafa inteira de vinho sozinha. Achando que foi pouco.
Só me faltam os gatos, senhores, vou providenciar.

Lição nº 3 - Passada a leve tonteira, você sente o que? Ressaca?? Não, no meu caso, você sente remorso. Deveria ter pego os livros e estudado feito uma condenada, mas fiz comida e tomeu vinho. E dormi. E fiquei com remorso. Mas não fui estudar mesmo assim.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Dinheiro para quem precisa



Até ano retrasado eu era daquelas que só comprava se tinha dinheiro na conta. Assim, não tinha cartão de crédito. Daí que acabei cedendo e fazendo um, com a finalidade de parcelar minhas passagens aéreas. 

Agora tenho 3 cartões. E contas muito altas. Não quero dizer que gasto mais do que ganho, não, nada disso, mas olha... em alguns meses eu ando gastando O QUE eu ganho.

Existe algum feitiço maledeto nesses retangulos de plástico, não é possível. Preciso parar, mas sempre acho alguma inutilidade super importante para comprar na internet.

A dona doida tá querendo entrar para o SERASA...

Sem medo da justa causa

O que acontece quando seu chefe entrou em uma daquelas reuniões que vão durar o dia todo, você já fez o que tinha pra fazer e mais um pouco, mas não pode embora já que ainda não deu a hora?

Enrola até começar a ficar com sono e começar a cair em cima do teclado. E aí?

Bem, se você for como eu, levanta, sai das salas, vai ao banheiro do corredor, entra em uma das cabines e tira uma soneca de uma hora.

Sexta-feira, bebê.

Amor de mãe


Tem como não morrer de paixão?
Eu (em tom de brincadeira): Fala a verdade, gatinha né mãe? 

Mamis (toda séria): Olha, tá. Aliás, você sempre foi bonita, mas agora, sei lá. Acho que é o dinheiro.

Eu: ??????

PS: não sou rica, não ganho bem, não ganhei na mega-sena e minha mãe sabe disso. É só o jeitinho dela de elogiar, mas ressaltando que a gente não tem mérito na coisa, haha.

Mais do mesmo



Já disse que ando comendo demais? Já, eu sei.

Hoje saí de casa sem tomar café, já que ontem tinha excedido minha cota mensal de mastigação porque não estava com fome. Peguei banana, tangerina, chá e coisas menos gordas e enfiei na bolsa.

Ainda não estou com fome, mas minha mente gorda já me interrompeu umas mil vezes “sugerindo” que eu fosse ao restaurante do trabalho (que só tem coisa gorda) e tomasse logo o café da manhã. Como pode, não estou com fome, e tenho opções saudáveis na bolsa, mas a gorda que habita meu pensamento fica me atrapalhando a trabalhar.

Vou fazer o que? Acho que sabadão me jogo num período de jejum, para acostumar o corpitcho a voltar a raciocinar e entender o que é fome.

E no domingo faço uma volta triunfal às comidinhas saudáveis/light, e segunda espero estar de volta ao normal.

Mas eu sei que provavelmente não farei nada disso.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Conto de quinta



-Deus, se você realmente existe, permita-me dizer que você é um grande sacana.

Ela estava lá, sentada no quarto de hotel, ainda vacilante quanto à decisão que tinha tomado momentos atrás. Olhava para seu reflexo no espelho e para tudo ao seu redor. Embora estivesse vestida, sentia-se nua. Não gostava de olhar para o espelho assim, como realmente era, despida da máscara.

Escutava, enquanto estava em transe, o barulho das pessoas na rua não muito distante, parecendo alegres, ou um tanto bêbadas, ouvindo música misturada com risos e conversas, tudo se misturando ao cheiro típico dos canais de Veneza, que insistiam em penetrar, às vezes, no seu quarto, como em ondas, violando o calor falso do aquecedor com aquele cheiro de maresia e esgoto, sempre gelado.

Ou talvez esse cheiro das ruas já estivesse impregnado em suas narinas e ela estivesse imaginando tudo.

Perto da porta, aguardando, estava o casacão preto. Maldito frio, ela pensava, não consigo ainda entender tanto ânimo em festejar com esse frio. Estava de meia calça grossa, de vestido, a bota e o casacão prontos para serem vestidos em questão de segundos. Mas ela vacilava, naquele momento, sentada em frente ao espelho, a maquiagem espalhada, pronta para ser usada, mas ali, intocada e inerte.

E a máscara.

Uma belíssima máscara, autêntica, veneziana, que cobria todo seu rosto. Não quis nenhuma daquelas grotescas. O hábito fez com que escolhesse um acessório que a deixasse bonita, mesmo toda coberta. Como se fosse importante. Mas não deixou que ninguém lhe desse a máscara escolhida, tampouco solicitou algum tipo de desconto, mesmo sabendo que preços são mais altos para estrangeiros. Num impulso que não soube explicar, decidiu que aquilo deveria ser feito somente por ela. A escolha, a compra, tudo.

Agora estava lá, incapaz de se encarar no espelho, não suportando se ver sem as camadas de tinta e fingimento que usou a vida inteira, mas sem coragem de, mais uma vez, colocar suas camadas de verniz, que lhe ajudavam a encarar o mundo. Respirou fundo, encarou seu reflexo.

Quase não se reconheceu. Era bonita, sem dúvida. Mas não sabia que aquela era a sua face real. Era mesmo? Nem mais se lembrava de quem realmente fora um dia, se era boa ou má, e seu nome parecia perdido em algum canto da memória que já não conseguia alcançar. Suas memórias estavam ali, antigas e novas, todas misturadas e como se pertencessem a duas pessoas diferentes. A máscara que usou a vida toda lhe permitiu ser outra dentro de si mesma. Permitiu que ela mentisse, que risse, que gozasse ou fingisse gozar quando era conveniente. Fez com que suportasse o dia a dia num escritório, comer o que não gostava, dizer não querendo dizer sim. 

Principalmente, permitiu que mantivesse o viés da indiferença, mesmo com tudo doendo demais... usou tanto esse artifício, esse tom de desdém, que começou a perceber que as coisas que sempre doeram por dentro, passaram a não doer tanto. Comemorou. A máscara ficava em seu rosto cada vez mais. Um dia, não doía mais. Bebeu, saiu, se divertiu e comemorou. Aquela dor não lhe pertencia mais, aquele aperto no peito que parecia que a perseguia desde o nascimento. Ela se sentia triste desde que se lembrava, desde tempos antigos. Agora não, aprendeu a usar aquela máscara e nada mais importava. Poderia ser quem ela quisesse.
Dias passaram, anos, e passou a perceber que, realmente, nada mais doía. Mas que ela era incapaz de sentir qualquer coisa. Não gostava de mais nada. O riso, as bebedeiras, até mesmo a tristeza precisaram do fingimento da máscara também. Afinal, um rosto sempre impassível não abre nenhuma porta. Mas mesmo se esforçando, nada adiantava. Era uma pedra.

Nem tanto. Sobraram alguns sentimentos resistentes: raiva e desespero. Sentia um ódio tremendo de ver a vida passar e não ter nenhuma impressão sobre ela que não fosse a indiferença. E sozinha, ao ver que a máscara estava encravada na pele, a raiva era substituída pelo desespero. Presa no próprio teatro, tendo que fingir ter sentimentos que antes lutava para não ter, para simplesmente poder sobreviver.

Percebeu, como um acaso, que a máscara afrouxava da pele quando ela se isolava. Sozinha, sem ninguém, ela começava a se desprender. Surgia o nada absoluto, o rosto impassível. Para se livrar de tudo, fez a viagem para longe de qualquer coisa que conhecia.

Agora estava ali. Aparentemente, com aquela máscara antiga já descolada, sentindo-se vazia e irreconhecível. Todas as suas memórias estavam ali, mas eram de outra pessoa. Coisas vividas sem terem sido sentidas. Como se estivesse vendo um álbum de fotografia de alguém conhecido. Sabendo do que se trata, mas não se emocionando, não se reconhecendo.

E o espelho, meu Deus, que terrível! Triste olhar para aquilo e não reconhecer quem está ali. Realmente não saber como aquela pessoa refletida está lá. Como chegou até aquele ponto? E não sabia como agir. Alguém a reconheceria na multidão? Não aquela multidão desconhecida, os outros. Se um dia voltasse, a reconheceriam? Ou a velha pessoa voltaria? Correria esse risco? E se não gostasse daquela pessoa sem memória que aparecia no espelho como sendo ela própria? Sentia-se totalmente desamparada, desprovida de carne, de alma. Cometeu um engano talvez, e estar nessa cidade, nessa situação, era uma piada de muito mau gosto do mundo contra ela.

A máscara física, representando tanta coisa, estava ali. Escolhida a dedo.  Faltava a coragem de sair e se mostrar ao mundo. Era uma máscara belíssima. Talvez tivesse sido melhor ter escolhido aquelas feias, narigudas, sinistras. No fundo, representariam melhor o momento. Para variar, fez a escolha errada. Sentia-se ridícula. Melhor deitar e dormir. Esquecer. Esquecer.

Era uma fraca. Era? Num impulso, decidiu-se. Pegou suas coisas, calçou sua bota. Vestiu seu casacão. Foi até a cama e agarrou a máscara. Respirou fundo, marchou para a porta. Saiu.

A máscara foi jogada no primeiro canal que ela viu. A partir daquele momento, seria ela mesma. Misturou-se com a multidão e perdeu-se. Ninguém mais soube dela.

Bem feito é pouco



Se eu tivesse vergonha na cara, tinha estudado só um pouquinho mais na época da escola e, sim, teria passado em medicina.

Mas, aos dezesseis, em plena crise depressiva, minha lógica foi a seguinte: Gosto de ler, gosto de escrever e, principalmente, gosto muito de discutir e tenho necessidade de ganhar a argumentação.

Logo, vou fazer direito.

No começo, amando, no meio desconfiando, no fim nem querendo pensar onde me meti. Até porque, no meio do processo, a empresa em que paizão trabalhava fechou, ele foi mandado embora, sofreu aquele processo de ter especialização demais para mercado de menos e família para criar. COMOÉQUE, nessa situação, você pensa em largar algo, sendo que nem sabe o que realmente gostaria de fazer??

E como a deprê/preguiça e, principalmente, falta de recursos (mas nesse tempo, paizão já estava bem, só que eu tenho vergonha na cara, tá?) não me permitiam dizer: me banca até passar em algum concurso, resolvi trabalhar.

Agora, aquela pessoa inteligente ficou perdida em alguma esquina. A que sobrou tenta ir para um cursinho e reaprender a estudar. No momento, estou falhando miseravelmente. Fico somente tentando não dormir depois das 9 horas, durante a aula (trabalho em tempo integral e vou para a aula a noite, viu). Aí, difícil passar em alguma coisa mais decente e tentar pensar, depois de estar um pouco mais tranquila na vida, no que eu realmente gostaria de fazer.

Daqui a 15 anos passo em alguma coisa, nesse ritmo. Talvez, até lá, tenha decidido o que eu realmente gosto na vida.

Se eu tivesse me esforçado só um pouquinho, hoje seria uma dermatologista que cobra mil pilas por aplicação de botox, uma neurologista viciada em trabalho ou uma médica loucona que está em algum lugar trabalhando no Médicos sem Fronteira (era meu sonho, sério).

Bem feito para mim, né, vida?