quinta-feira, 25 de abril de 2013

Conto de quinta



-Deus, se você realmente existe, permita-me dizer que você é um grande sacana.

Ela estava lá, sentada no quarto de hotel, ainda vacilante quanto à decisão que tinha tomado momentos atrás. Olhava para seu reflexo no espelho e para tudo ao seu redor. Embora estivesse vestida, sentia-se nua. Não gostava de olhar para o espelho assim, como realmente era, despida da máscara.

Escutava, enquanto estava em transe, o barulho das pessoas na rua não muito distante, parecendo alegres, ou um tanto bêbadas, ouvindo música misturada com risos e conversas, tudo se misturando ao cheiro típico dos canais de Veneza, que insistiam em penetrar, às vezes, no seu quarto, como em ondas, violando o calor falso do aquecedor com aquele cheiro de maresia e esgoto, sempre gelado.

Ou talvez esse cheiro das ruas já estivesse impregnado em suas narinas e ela estivesse imaginando tudo.

Perto da porta, aguardando, estava o casacão preto. Maldito frio, ela pensava, não consigo ainda entender tanto ânimo em festejar com esse frio. Estava de meia calça grossa, de vestido, a bota e o casacão prontos para serem vestidos em questão de segundos. Mas ela vacilava, naquele momento, sentada em frente ao espelho, a maquiagem espalhada, pronta para ser usada, mas ali, intocada e inerte.

E a máscara.

Uma belíssima máscara, autêntica, veneziana, que cobria todo seu rosto. Não quis nenhuma daquelas grotescas. O hábito fez com que escolhesse um acessório que a deixasse bonita, mesmo toda coberta. Como se fosse importante. Mas não deixou que ninguém lhe desse a máscara escolhida, tampouco solicitou algum tipo de desconto, mesmo sabendo que preços são mais altos para estrangeiros. Num impulso que não soube explicar, decidiu que aquilo deveria ser feito somente por ela. A escolha, a compra, tudo.

Agora estava lá, incapaz de se encarar no espelho, não suportando se ver sem as camadas de tinta e fingimento que usou a vida inteira, mas sem coragem de, mais uma vez, colocar suas camadas de verniz, que lhe ajudavam a encarar o mundo. Respirou fundo, encarou seu reflexo.

Quase não se reconheceu. Era bonita, sem dúvida. Mas não sabia que aquela era a sua face real. Era mesmo? Nem mais se lembrava de quem realmente fora um dia, se era boa ou má, e seu nome parecia perdido em algum canto da memória que já não conseguia alcançar. Suas memórias estavam ali, antigas e novas, todas misturadas e como se pertencessem a duas pessoas diferentes. A máscara que usou a vida toda lhe permitiu ser outra dentro de si mesma. Permitiu que ela mentisse, que risse, que gozasse ou fingisse gozar quando era conveniente. Fez com que suportasse o dia a dia num escritório, comer o que não gostava, dizer não querendo dizer sim. 

Principalmente, permitiu que mantivesse o viés da indiferença, mesmo com tudo doendo demais... usou tanto esse artifício, esse tom de desdém, que começou a perceber que as coisas que sempre doeram por dentro, passaram a não doer tanto. Comemorou. A máscara ficava em seu rosto cada vez mais. Um dia, não doía mais. Bebeu, saiu, se divertiu e comemorou. Aquela dor não lhe pertencia mais, aquele aperto no peito que parecia que a perseguia desde o nascimento. Ela se sentia triste desde que se lembrava, desde tempos antigos. Agora não, aprendeu a usar aquela máscara e nada mais importava. Poderia ser quem ela quisesse.
Dias passaram, anos, e passou a perceber que, realmente, nada mais doía. Mas que ela era incapaz de sentir qualquer coisa. Não gostava de mais nada. O riso, as bebedeiras, até mesmo a tristeza precisaram do fingimento da máscara também. Afinal, um rosto sempre impassível não abre nenhuma porta. Mas mesmo se esforçando, nada adiantava. Era uma pedra.

Nem tanto. Sobraram alguns sentimentos resistentes: raiva e desespero. Sentia um ódio tremendo de ver a vida passar e não ter nenhuma impressão sobre ela que não fosse a indiferença. E sozinha, ao ver que a máscara estava encravada na pele, a raiva era substituída pelo desespero. Presa no próprio teatro, tendo que fingir ter sentimentos que antes lutava para não ter, para simplesmente poder sobreviver.

Percebeu, como um acaso, que a máscara afrouxava da pele quando ela se isolava. Sozinha, sem ninguém, ela começava a se desprender. Surgia o nada absoluto, o rosto impassível. Para se livrar de tudo, fez a viagem para longe de qualquer coisa que conhecia.

Agora estava ali. Aparentemente, com aquela máscara antiga já descolada, sentindo-se vazia e irreconhecível. Todas as suas memórias estavam ali, mas eram de outra pessoa. Coisas vividas sem terem sido sentidas. Como se estivesse vendo um álbum de fotografia de alguém conhecido. Sabendo do que se trata, mas não se emocionando, não se reconhecendo.

E o espelho, meu Deus, que terrível! Triste olhar para aquilo e não reconhecer quem está ali. Realmente não saber como aquela pessoa refletida está lá. Como chegou até aquele ponto? E não sabia como agir. Alguém a reconheceria na multidão? Não aquela multidão desconhecida, os outros. Se um dia voltasse, a reconheceriam? Ou a velha pessoa voltaria? Correria esse risco? E se não gostasse daquela pessoa sem memória que aparecia no espelho como sendo ela própria? Sentia-se totalmente desamparada, desprovida de carne, de alma. Cometeu um engano talvez, e estar nessa cidade, nessa situação, era uma piada de muito mau gosto do mundo contra ela.

A máscara física, representando tanta coisa, estava ali. Escolhida a dedo.  Faltava a coragem de sair e se mostrar ao mundo. Era uma máscara belíssima. Talvez tivesse sido melhor ter escolhido aquelas feias, narigudas, sinistras. No fundo, representariam melhor o momento. Para variar, fez a escolha errada. Sentia-se ridícula. Melhor deitar e dormir. Esquecer. Esquecer.

Era uma fraca. Era? Num impulso, decidiu-se. Pegou suas coisas, calçou sua bota. Vestiu seu casacão. Foi até a cama e agarrou a máscara. Respirou fundo, marchou para a porta. Saiu.

A máscara foi jogada no primeiro canal que ela viu. A partir daquele momento, seria ela mesma. Misturou-se com a multidão e perdeu-se. Ninguém mais soube dela.

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